quarta-feira, 27 de julho de 2011

ALEXANDRE MENDES

(Por Diego EL Khouri)


Alexandre Mendes é um artista completo. Além de poeta é contista, ensaísta, cartunista, historiador, ativista e fanzineiro. Tive a honra de conhecê-lo pessoalmente em dezembro de 2010 quando estive em Niterói (RJ). Uma alma simples e instigante que esbanja  desenvoltura criativa e intensidade de pensamento, porém humildade, apesar do grande conhecimento que esbanja. Na ânsia de devassar toda cultura alternativa e mostrar o que  está se produzindo de qualidade pelo país, entrevistei essa bomba atômica, a simplicidade dentro da complexidade de uma dinamite que expalha idéias  de luta social e independência intelectual.




“Historiador, operário e professor. Construiu a casa  com as próprias mãos. Adora ler Nietzsche e comer ovo frito.” Quem mais seria Alexandre Mendes?

 Compreensão e desejo de mudança das estruturas vigentes dentro da civilização humana. Nem sempre o que parece ser correto e verdadeiro, realmente é. Uma transformação na forma de ver a sociedade é necessária, principalmente. O acúmulo de riquezas por poucos e a depredação da natureza são os problemas primários, gerados pelo fortalecimento do capitalismo. Mudar é preciso e dedico minha obra a propagação dessa idéia. 

Suas poesias, contos e cartuns nos mostram claramente sua indignação com a sociedade atual. De que forma a arte deve trabalhar para mudar essa realidade?

Ela tem o dever de conscientizar o povo de sua situação social, delineada pelos manipuladores da política e da economia mundial. É como eu sempre digo: o serviço manual não deveria ser tão desvalorizado. A mão-de-obra dos operários é o que verdadeiramente sustenta o sistema atual. 
A renascença foi a renovação das idéias caducas do feudalismo. Atualmente, quem precisa de uma nova arte (a qual possa trazer a renovação das idéias) é o sistema capitalista. 

Qual foi o boom que o levou para  a arte?

Quando criança, gostava de ler, escrever e desenhar. O que passei após a morte de minha mãe, isto é, a consequente inserção no mundo de verdade, sem a ajuda financeira de ninguém, foi o fator determinante.
A extrema opressão
A injustiça
O menosprezo
O fortalecimento dos estereótipos
A exclusão
O desemprego
A proibição do trabalho informal, facilitando a fome e a violência
Já experimentei um pouquinho de cada. Sinto que preciso passar as experiências que tive na vida para quem nunca pensou e nem viveu as tais. A má distribuição das coisas é pavorosa!


Você participou do fanzine O Berro junto com Fabio da Silva Barbosa e Winter Bastos. Fanzine esse que saiu em livro pela Editora Independente de Brasilia. O que o levou a abandonar o zine e quais os novos projetos que participa?

 Abandonei o Berro por sobrecarga de estudos da faculdade. Atualmente, busco trabalhar somente na área de educação e continuar produzindo arte, pois é a válvula de escape mais digna que eu encontrei na minha vida. Tenho o blog peresteca e alguns projetos de zines e quadrinhos que pretendo finalizar antes do fim do ano.



O fanzine Gambiarra que elaborou junto com Fabio da Silva Barbosa é uma obra prima, tanto pela temática quanto pela construção, todo feito manualmente, sem auxílio de computador. Há previsão de sair continuações?

O Gambiarra foi, para mim, uma obra bastante complexa, em termos de alcançar seus objetivos. Entretanto, já tenho outro zine aqui pronto e o lançarei em breve. Esse também é feito a mão, só que tem muito mais quadrinhos do que textos.


Dentro de sua construção artística , filosófica e visual onde se encontra o blog Peresteca?

O Peresteca é um lugar onde ainda exponho o que vem em minha mente, em dias difíceis ou memoráveis da minha vida. Preciso de uma válvula para despejar tudo o que penso e associo do mundo em que vivo. O Peresteca sou eu.

E seus cartuns?


A arte visual é poderosa e capaz de criar polêmicas. Infelizmente, investe-se muito em pouco nesse tipo de arte. Prezam a arte que traz o maior retorno financeiro. Algumas, não são nem dignas de serem chamadas de arte. Destroem a mente do povo.

Nos fale do seu início no mundo dos fanzines e porque ainda acreditar nessa arte ainda tão exclusa da grande mídia.

Comecei em 1993, aos 16 anos, com o fanzine "Terceiro Mundo- O submundo dos ratos", no qual já participavam meus velhos amigos de produção artística. O contato com o ideário anarquista punk e a relativa influência do conceito de liberdade do movimento hippie são meus pontos de partida para o que produzo. A arte do povo contemporâneo, excepcionalmente a arte dos mais simples, é a verdadeira arte que contará fielmente o que aconteceu por aqui, para possíveis futuras espécies.

Onde Nihildamus é Alexandre Mendes e onde Alexandre Mendes é Nihildamus?

Nihildamus é uma parte de mim que simboliza o fim de tudo. Cada vez que ocorre as experiências ruins, ele se fortalece. Negar a vida vivida sobre parâmetros sociais impostos, peregrinação pela pregação do nada e a solidão. As vezes, ele diz coisas que não fazem sentido para mim e luta para que eu aperte o botão do foda-se para a vida. As vezes fico preocupado com isso...






E o Coletivo Zine?

O Coletivo Zine é uma inteligente estratégia de integração artística dos zineiros, criada pelo Wagner Teixeira. Eu participo com muito orgulho. Uma iniciativa dessas não pode ser desprezada, jamais.


E o impresso das comunidades?

O IDC foi um trabalho que me deu muito prazer de desenvolver ao lado do Fabio Barbosa e apoio em geral. Gostaria um dia de voltar a desenvolver o informativo. Aliás, se eu pudesse só trabalhar nele e sobreviver disso, começaria agora.

Agora é a sua hora falar o  que quiser. Fale. Desabafe. Diga o que quiser.

Não assistam novelas e outros programas medíocres que possam atrofiar a mente de vocês.
Não creiam em uma pessoa, somente porque ela diz e faz algo durante anos que possa parecer bom.
Não creiam cegamente em tudo que lhe ensinam.
Não tenham medo de desafiar as eternas verdades do mundo.

4 comentários:

  1. Grande Diego!
    Sempre com otimas entrevistas, sempre bom conhecer artistas como o alexandre, bacana esse impresso das comunidades.

    Parabéns ai Doug

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  2. Valeu, véio! Quando você vem ao Rio?

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