segunda-feira, 11 de setembro de 2017

ENTREVISTA COM O POETA RAFAEL VAZ

Por: Diego El Khouri

Conheci esse poeta  nas estradas da vida. Além de poeta é performer e zineiro. Abaixo a entrevista que fiz com esse "bardo louco" (e nesse link endereço do seu blog http://poetarafaelvaz.blogspot.com.br/) :




1) Como foi seu início na poesia e de que forma a literatura modificou seu olhar como artista?

Sinto me muito feliz que em fim alguém perguntou coisas a mim. A poesia nasceu da necessidade do silêncio. Meu contato no começo era apenas pelos livros do Vinícius e do Drummond e do Bandeira. Eu era chato e preguiçoso para ler mais livros. Quando me mudei para Goiânia ao dezessete anos, me senti um animal fora da selva e teria um longo tempo de adaptação, então escrever foi uma forma de não enlouquecer nesse processo, influenciando depois muito no meu trabalho e linha de escrita. A literatura com certeza foi a causa de toda loucura que é minha vida pois foi justamente minhas leituras que abriram os olhos e hoje ter me tornado o que os outros chamam de pessimista. Acima de tudo a literatura no liberta de muitas amarras e uma inclusive é, contra nós mesmos.


2) Você transita entre Altamira (PA) (sua terra natal) e Goiânia (GO). Qual a diferença da vida artística nessas cidades e o que é preciso ser feito para a população ter acesso à cultura?

Se essa pergunta fosse feita há alguns anos atrás, eu diria tristemente que Goiânia é um outro mundo. Goiânia é um outro mundo. Mas Altamira hoje tem uma cena poética maravilhosamente movimentada graças aos meus amigos poetas daquela cidade, como os meus amigos Aline e Fabiano Vitoriano, que comanda um sarau mensal na cidade. Eu nuca pude exercer a função de poeta em Altamira, gostaria muito um dia. Agora em Goiânia o meu processo está todo ligado a partir do momento que saio de casa. Minha conexão com a cidade é essencial para meu processo de criação. Eu deixo partes de mim por todo lugar que eu vou em Goiânia. Eu acredito que a cultura precisa falar a língua do povo. A população quer saber primeiro se vai bem recebida, bem tratada. Sempre temos um pé atrás com quem nunca nos deu nada. Sabe como é, né?

3) Agora falando mais especificamente de Goiânia. O que tem a dizer dos saraus que ocorre na cidade e dos poetas que ultimamente estão em atividade e que se apresentam nesses espaços?

Já faz uns três anos que temos nos decepcionados com esta cena que sobe,desce (literalmente) nos tem apresentado a poesia goiana. Temos um grande poeta de um livro só. Velhos burgueses barrigudos que só tomam chá na nossa Academia Goiana. E jovens poetas que não conhecerão estes outros. Somos cada um por si e todos por um poema eterno. Saraus já não nos satisfazem mais. Goiânia funciona a partir de como os burgueses querem que vivemos. Estamos todos perdidos. E em meio a tudo isso, eu deixo um lambe, um poema, um grito. Precisamos ocupar todas as ruas. Quebrar nossas tvs. Exagerar de arte e poesia toda e qualquer pedaço de cidade.

4) A idéia de "interferência artística" na cidade modificando o espaço é uma de suas ações rotineiras levadas sempre aos extremos das ruas: lambe lambes, fanzines, poesias na rua, etc. Nos conte qual a função  que a rua tem no seu processo  artístico e qual a importância que esse tipo de vivência tem em sua vida.

  Eu sempre gostei de caminhar e isso me levou a conhecer toda cidade. Minha ação pela cidade sempre foi um pedido de socorro, um "olha pra mim!". E foi assim, que depois a conexão se tornou mais forte depois das experiências de morar na rua que ocorreram tanto no Rio como em Goiânia. A rua é cheia de histórias bem mais bonitas que essa que o sistema cria para gente. Conheci pessoas maravilhosas que um dia gostaria de encontrar. São tantos os lugares que interferir que gosto de sentir que sou um pedaço da cidade.


5) Nos fale sobre o seu  zine "O ano que perdi amando". 

No início do ano eu passei por uma crise muito forte e acabei queimando todos os meus papeis e trabalhos e documentos e tudo que carregava. Virei um um poeta do zero. Depois de certo período de tratamento eu enfim fui reincorporado ao mundo dos poetas, com poemas que acredito serem bem mais maduros que os que queimei. e assim nasceu "O ano que perdi amando", de uma desilusão amorosa carregada de luxúria. Mas essas histórias terminam mal que pra acaba amando. e como poete eu contei. É meu preferido porque é o tipo de poesia que me agrada.



6) Como você, estudante de artes visuais em licenciatura, encara o poder revolucionário da educação? De que forma pensa em contribuir nessa questão, ainda mais sabendo que vivemos em um Estado que manipula o ensino desde a base?

A Licenciatura tem sido uma grande surpresa pra mim. A educação é realmente transformadora e poucos de nós sabemos as armas que temos nas mãos. O Brasil é um país jovem e ainda temos muito para aprender. Acredito que devemos educar para tornar as pessoas mais críticas, observadoras e questionadoras daquilo que pedem para que sejam suas vidas. Os sistema vem apelando cada vez mais na imbecilização do povo e podemos está voltando para a década de 90. Todos os prédios públicos estão defasados e devemos cada vez mais trazer a escola pra rua, chegou a hora de os brasileiros se conhecerem.

7) Qual a sua opinião sobre a descriminalização e legalização da maconha?

Existem dois tipos de pessoas no mundo. Maconheiros e Caretas. Só quem crítica é quem nunca fumou. Procure um especialista contra e nunca achará. Eu fumo por causa da ansiedade, a maconha me deixa mais calmo e alegre, me permite não me matar. Penso demais. Cada vez mais as discussões vem tomando mais espaço e muitas pessoas já sabem ouvir os argumentos. Uma dica que posso dar é fumar ao ar livre, é a melhor forma. Legalização é importante para tentarmos desmembrar as redes de tráficos que nos colocar numa cena totalmente errada que é cada vez mais a negação de um povo que vive em torno dos centros urbanos. E mata muitos jovens que sonham apenas em ganhar um dinheiro pra ajudar alguém.


8) Como você pretende morrer?
Ultimamente venho pensando nisso. Já tive um nó em casa, mas percebi que não tenho coragem. Sempre pensei que só teria coragem com um tiro na cabeça, ouvi dizer que dura três segundos, isso eu aguento. Mas do jeito que sou, acho que um dia irei errar e bum! será overdose. kkkkkkk
Ps: Me enterrem pelado.
     
9) Uma grande imprudência.

Minha maior imprudência é não sacar as mulheres que me dão mole. Com certeza, as decepcionei. Espero que elas me deem outra chance.

10) Uma poesia de sua autoria.
por várias vezes questionei
meus poemas, minhas ações.
já quis parar.
a vida cheia de coisas boas,
maravilhosas, estava
em desvantagem contra
as coisas que os homens
faziam para controlar
sua vida.
o que você deve fazer,
o que você deve ter,
eu estava sendo engolido
por tudo isso.
por todos.
você senta na calçada
e espera que algo aconteça
e nada acontece
e você cria um deus
e reza a ele
e ele te manda esperar,
porque primeiro ele também
precisa existir, já que os homens
também o corromperam.
as horas passam
e sua vida não muda
e você não consegue se
mexer porque o mundo
já está pronto para te
dar o próximo soco.



quarta-feira, 6 de setembro de 2017

ENTREVISTA COM O POETA MARCELO NIETZSCHE

Por: Diego El Khouri

  Eu conheci o poeta Marcelo Nietzsche em 2014 no sarau Ratos Di Versos, evento que acontece toda quinta feira na Lapa (RJ). Na ocasião eu estava morando no Rio de Janeiro. 


***


"Marcelo Nietzsche nasceu em 1964. Sua identidade atualmente informa que ele é natural do Rio de Janeiro, mesmo sua certidão de nascimento afirmando que ele é carioca, nasceu na Guanabara e para viver, as leis dizem que ele tem que mentir, negar.
Então, está bem. É natural de um país que o futuro rei da metrópole declarou independência da colonia e se tornou o primeiro imperador desta, depois rei daquela.
De um país em que um militar monarquista declarou república e o fim da monarquia.
É integrante do Ratos Di Versos, um coletivo do Rio.
Sério? é jornalista formado pela PUC, webriter e arquiteto da informação."

Abaixo a entrevista que fiz com esse grande escrivão delirante da palavra.



1) Como se dá o seu processo artístico e existencial dentro da poesia, educação, no panorama cultural da cidade que reside e qual paralelo faz com artistas de outros estados do Brasil?

Aí são diversos caminhos que se entrecruzam e se distanciam nesta pergunta.
Não há um processo em si. No âmbito artístico o que há é o que alguns rapidamente preferem classificar como epifania, ou talvez dom, mas é como uma vez perguntaram a Picaso, diante de obras como cabeça de touro, que é um guidon de bicicleta fixado a um selim, “como você procura essas coisas? esses achados?” ...”eu não procuro, eu encontro”. É isso. Não crio, produzo ou nome  a ser dado como epifania ou algo assim, mas é algo que já existe internamente, em constante transmutação, que por motivos como sons, sinais, luzes, vento frio, ou chuva, encontro o caminho, o fluxo.
É, talvez possa-se dizer que é um processo, mas orgânico e impreciso como o viver. E nada pode ser superior ao viver, nem estruturas nem desejos. Sou um taoista com sangue punk, expressionista, ouvinte de Teixeirinha até noise, passando por jazz, leitor de ensaios, poemas, romances nem tanto ...  não por escrever “ curto”, haikais, mas observo uma necessidade muito grande atual de se escrever poemas mais longos, uma necessidade não poética, porém existencial ... fruto da comunicação-não dos tempos atuais, de em vez de encontrar o sentido no texto dar um sentido com a audição, leitura ao texto ... um processo de negação do outro e por isso textos longos para não se perder o sentido que se perde ao ler
No Rio o panorama cultural tem suas especificidades. No que concerne às artes teatrais, cinematográficas, e muito da musical, existe o dono, senão proprietário ao menos ditador de  preferências que um canal de televisão  E os teatros se entopem de musicais, de preferência de uma artista morto ... ano que vem estreará um sobre mim? será que morri ou morrerei? ... ou então de musicais  ou comédias fulas.
Na música não existe espaço razoavelmente decente para se tocar. São lugares para vinte. sessenta, menos de cem pessoas com exceção do Bar do Nanan .... os maiores estão abertos para o que der retorno. Então aqueles espaços são muito válidos, no entanto, não é algo estimulante. Estimulante é ocupar os espaços públicos, interferir no espaço público, se articular nas brechas do Estado, e trazer a população, as pessoas para vivenciar o meio onde vivem e circulam. É uma pauta de resistência. Como digo em uma cidade onde a cultura na rua é cerceada, até recitar poemas de amor é subversivo .
Projeto como o VAI de São Paulo que encampavam projetos pela sua qualidade, seu projeto e não pelo retorno de público, financeiro, atualmente com o novo prefeito vem sendo desmantelado.
No Rio produtores culturais, poetas, diretores de cinema, e outros, se articulam para conseguir ganhar dinheiro do Estado, com a satisfação deste, o que será feito, qual a repercussão, qual o ganho humano para as pessoas não tem o menor interesse para nenhuma das partes.
Mas sempre foi, mais ou menos assim. Meu pai já me dizia há décadas:” se quer ser poeta trate de passar em um concurso público”.



2) O seu livro "Pequeno Caderno de um Calhorda Bem Resolvido", tem uma visão niilista, erótica e satírica bem intensa e ácida em relação a sociedade em que vivemos. Como é produzir uma literatura tão provocativa nesse período politicamente correto em que estamos situados?

Correto, certo / o politicamente correto / passou perto.
A resposta em si é: não sei. Só sinto as conseqüências e não é isso que alterará meu humor. Tenho um humor muito sarcástico, caótico. Isso nem é bom nem mal. Para alguns pode ser legal, ou bom, afinal temos que ser construtivos, positivos, aglutinadores. Sempre gostei de trabalhar no contra-pé. Quando mais novo era goleiro para atrapalhar a festa do jogo. Não era fantástico, mas era muito bom.
As pessoas querem textos onde possam se encontrar, se identificar, se abraçar, se sentirem confortáveis. Mesmo quando mais suave não consigo incorporar esse conformismo, Prefiro algo que desarticule e me faça me rearticular.
Além do que é muito divertido chutar a hipocrisia latente e invisível por excesso de visibilidade. Desde pequeno em Botafogo me incomodava a placa perto do cemitério que dizia “no vermelho piscante” - piscante é qualidade, é adjetivo, não verbo, não tem ação. Mais de três décadas a placa ainda está lá e foi sendo adaptada para outros lugares, cidades.
Há que se ter algo que tire da mesmice, um provocador, um polemista. Ou como escrevia Nietzsche: “não acredito em uma verdade que não venha com uma gargalhada”
O mais complicado é que o politicamente correto não tem senso de humor, é um viver enquadrado, travado, funcional, e com isso as articulações humanas, sociais, afetivas, se vêem igualmente engessadas; há uma redução de opções existenciais, de vida.


3) Acredita, como Paulo Freire, que a "educação é revolução? Como trabalhar a educação em um Estado que manipula e sabota o ensino desde a base?

Sempre foi objetivo de governo não liberais – liberais no sentido antigo, de livres, de libertadores – o controle, o encampamento, a educação como um meio de permanência. E quando não percebe-se que o esfacelamento da educação produz o mesmo efeito. Não mais a permanência pela integração, pelo enquadramento de um, como diria Gramnsci, aparelho ideológico, mas pela fraqueza cognitiva, perceptiva, argumentativa, pela carência de opções que permitam uma visão ampla, principalmente de se buscar soluções, alternativas. Isso não é dado com esquemas rígidos, mecânicos.
Mesmo na não existência de manipulação ou sabotagem processa-se, pois é necessário, apesar de tudo, um pĺanejamento de ideológico ou de princípios, e aí ocorre a grande dificuldade que é humana: o despegar-se. Assim como a função dos pais é ensinar e demonstrar para os filhos que eles são dispensáveis; neste ponto deve-se ir além das próprias percepções, ideologias, crenças. Tem-se que ser aberto, inclusive para entender, que para alguns um sistema mais programático, rígido, tem uma funcionalidade maior. É uma questão não de educação mas de instrução, de puxar de dentro do outro e não empurrar para dentro.
Então essa visão se principiaria antes na concepção de uma sociedade, Estado, que não tivesse como primazia a igualdade, pois não somos iguais, somos semelhantes, parecidos, e sim na desigualdade e na sua valorização. Regozijar-se das diferenças.


4) O que te provoca espanto?

Muitas coisas.
A dificuldade cada vez maior de se aceitar posicionamentos diferentes dos próprios. São neoliberais catequizando pelo pensamento único, são grupos militantes lutando por visibilidade, são ditos poetas, todos se encastelando em visões únicas e inquestionáveis.
É o ódio crescente pela dificuldade de comunicação. Estes tempos digitalmente narcisisticos e covardemente anônimos não querem permitir a diferença de opiniões, perspectivas, sequer de construção e explanação do pensamento. Pode-se pensar diverso desde que, ao menos, se estruture o pensamento da maneira aceita previamente. Não alcanço Maiakovski de uma nova idéia uma nova linguagem – não como uma coisa obrigatória.
E não se percebe, por exemplo, que um “típico” comunista é tão patriótico quanto um reacionário e igualmente, neste sentido, nocivos para a produção cultural dentro de um país.
É alguém que se acha “legal” e “ de bem consigo mesmo” por participar de causas, que ajuda os outros e não percebe que é um hipócrita: se faz “o bem” e se sente “bem consigo mesmo “ por isso está só ajudando o seu ego . ... Da mesma forma um ferrenho combatente da autoridade se posiciona como autoridade, mas libertadora? livre? não me é muito distante.

5) O que anda lendo ultimamente?

Livros de estudo culturais como Homi Bhabha, Frantz Fanon, Beatriz Sarló, Aganbem, com um pouco de poesia beat e Murilo Mendes. Tenho por hábito ler uns três, quatro livros ao mesmo tempo.
Além dos diversos fanzines que chegam nas mãos vindo de diversas partes do Rio, de São Paulo, Salvador, Minas.

6) Quando cria em algum momento pensa no receptor? Existe esse diálogo artista e público?

Realmente não. Porque é o seguinte: como já disse antes cada vez mais se busca dar um sentido no que se lê em detrimento de tentar encontrar um sentido na obra.  O dito receptor vai interpretar, e essa é quase uma exigência moderna, a potência do interpretar, o que quiser e como quiser. Então ...
O que me percebo construindo, tentando encaminhar, adivinhar, é o “efeito” que terá ... a conclusão, a interpretação não.
Esse diálogo depois das vanguardas do início do século XX, principalmente depois da experiência dadaísta ficou muito confuso; pois qualquer coisa podia ser arte, por assim dizer. E entrou-se em uma fase, que aliás não se saiu, por demais conceitual. Tão conceitual que o artista não consegue transpor para a obra o conceito, há a necessidade de expor, explanar, esmiuçar o conceito. O texto explicativo, o catálogo da exposição se tornou, muitas vezes, mais importante que as obras.
É como o poema Os Homens Ocos de T.S.Eliot, que por sinal eu gosto, mas as notas explicativas ocupam quase o mesmo número de páginas. Explicações de que um trecho do poema se remete a um poema de tal poeta e que pro tais coisas foi assim escrito. Sinceramente, uma citação tem valor dela, desvinculada, da obrigação de conhecimento contextual.

7) Poesia.

Haikus: Basho, Issa. Fernando Pessoa; Mário de Sá-Carneiro; Nicolas Behr; T.T.Catalão; Jacques Prevert; Ana Cristina César; Gregory Corso, Leonard Cohen; Leminski; Geotffried Benn; Ernst Stadler; Georg Trakl; Lautreamont; Blake. Lorca; e muitos mais . Com esses compreendi, percepi, assimlei, sei lá, que a poesia faz parte, é um viver; um diálogo de estar-no-mundo; menos ou mais produzido.
Da poesia de hoje não cito poetas porque alguém vai se chatear pelo esquecimento, ainda mais se não for esquecimento. O certo é que como sempre Millôr ainda é vivo: “poesia é um milionésimo do que se publica como poesia”. 

Mas quando falo em poesia como diálogo e no sentido, por exemplo de diversos haikais, onde o poema faz parte de um desenrolar da vida. Nunca como poesia catártica ou outra qualquer onde a importância está centrada no eu, na exposição da pessoa, enquanto veículo dela se expor, se resolver, se desenrolar, ou qualquer coisa do gênero - é a poesia-auto-análise, a poesia-me-vejam. Da mesma forma tenho muito ressalvas quanto a poesia militante, praticada em larga escala atualmente; é a poesia do poeta-grupo-gênero-etnia que deseja a visibilidade para sua causa. Essa poesia-de-militância tem seu foco e sua urgência na militância perdendo-se enquanto literatura. E exatamente por essa urgência tem um valor histórico, social, antropológico mas carrega em si um esquecimento futuro enquanto literatura. O maior exemplo disso é Brecht cujos poemas programáticos somente são lembrados por militantes.

O dálogo se dá com o viver, com hoje, mas também , não exatamente com o futuro, com a questão da permanência. A obras auto-destrutivas ou feitas para perecer que permanecem.


8) Cinema.

Expressionismo alemão; filmes experimentais das décadas de vinte, trinta; cinema noir, Roger Corman; Irmãos Marx; Pasolini. Sou chato para filmes: não gosto de conversar sobre filmes que acabei de ver, só depois de alguns dias. Filme é aquele que faz você sair “diferente” de quando entrou. Não porque você se emocionou, esse sentimento rápido e frágil, aquela lágrima que produz grandes bilheterias. Quando pequeno minha família não queria que eu sentasse perto quando íamos ver os Irmãos Marx ... eu ria muito. Assim também em Love Story ... eu ria muito.

9) Diversidade cultural.

Existem muitas faces no que se refere à diversidade cultural.
Primeiramente o conceito dos diversos aspectos como linguagem, culinária, e tais, que definem as pessoas em um determinado território, com isso pode-se compreender o processo de diferenciação entre elas. Isso forma uma identidade cultural, que atualmente e antes, com diásporas, exílios, imigrações vão para além do território como algo físico.
Porém, a coisa se complica quando se parte para fazer uma defesa da diversidade cultural. Certamente a “globalização” pode ser algo perigosa para ela. Mas a fase atual não busca a homogeneização. Muito pelo contrário, há um incentivo, uma criação de multiplicidades ... quanto mais mercado mais consumo mais produção ... o mote é de que tudo é produção, tudo é consumo ... não se lê mais um livro, se consome um livro. Como? eu não como papel! Uso óculos de tanto que a leitura “consumiu” a minha vista.
Ou seja, o perigo não está na homogeneidade, mas no achatamento das potências culturais, na redução de suas diferenças. Hoje em dia não existe uma grande distância entre uma música sertaneja e um pagodinho, por exemplo. Você pode transpor as letras de uma música para outra e é a mesma coisa, a mesma experiência; assim também trocar somente o andamento, sem grandes alterações de arranjos, notas, escalas e uma será a outra e vice-versa. Existindo parâmetros também existem as curvas fora dos parâmetros que já são esperadas e maleavelmente serão “consumidas”.
No entanto, sempre haverá brechas, caminhos invisíveis, despercebidos, para se trabalhar fora da marca.
Não como mas como arte plástica, curiosa é a situação diversa entre Rio e São Paulo. Como as grandes galerias se mudaram para São Paulo – umas poucas alternativas ou não começaram à pouco a se estabelecer no Rio – a grande parte da produção de artes plásticas paulista tem seu foco em galerias, no expor e vender, limitando-se nas experiências, ao contrário da produção carioca. E exatamente por isso galerias começaram a ser abertas no Rio.
Mas um grande problema da questão da diversidade cultural está nos seus defensores, na formulação conceitual da coisa. Vinculando a diversidade cultural formadora de uma identidade cultural em uma fortaleza que não se deve tocar eternamente. São os adoradores de tradições, muitas vezes louvando uma pureza quase ingênua .... não a da cultura mas a deles. Inexiste esta pureza: o samba, tradição brasileira, o candomblé, tradição uruguaia, são frutos de misturas culturais assim como o jazz, o blues. O haikai, o reggae, tradições literárias japonesas, assim como a própria língua ipônica são variações do chinês. Pior a Argentina cuja música, o tango, tem como maior cantor um francês e o maior compositor um paulista de Santos. Uma das primeiras grandes equipes do Rio de funk – chamado hoje em dia de nossa música, música do povo, etc – a Chasbox tinha, e tem, seu som baseado em Kraftwerk e New Order – duas bandas brancas, uma de alemãs e outra de ingleses.
Essa formulação da tradição atrapalha a própria dinâmica cultura, a sua permanência. Não que a tradição, o jongo imutado, ou outra forma de expressão devam acabar. Não é isso. Mas esta dimensão grandiosa e inviolável é prejudicial a ela mesma, construindo seu progressivo esvaziando até ser recolhida em museus ou ficarem esperando um arqueólogo desenterrá-la. Enquanto isso quem não se insere, não se adere, é discriminado.
Agora, quanto a mim, acho um debate válido mas vazio. Não entendo o não reconhecimento da diversidade, pois é a mesma tecla sempre: não somos iguais, devemos nos regozijar das diferenças. A igualdade almejada quando realmente for alcançada, o que nunca acontecerá, será um milésimo de segundo antes da pulverização total da espécie humana.




10) Próximos passos.

Conseguir publicar livros de poemas, ensaios, de preferência sem ter que bancar e que tenham distribuição; que é a grande maldição do Brasil
E continuar com o coletivo  Ratos Di Versos

11) Epitáfio.

Vim
Vinho
Velho



Não sei se seria epitáfio em si mas ... com certeza é um dos caminhos. O original não me lembro de quem, provavelmente Malatesta: " Não quero emancipar as pessoas, quero que as pessoas se emancipem".



quinta-feira, 6 de abril de 2017

O ARTISTA SALVESS E O UNIVERSO RICO DA COLAGEM

Por: Diego El Khouri


Mais uma entrevista com um artista interessante a colorir essas páginas virtuais com cultura e poesia visual: Sidney Silveira (mais conhecido como Salvess), um grande expoente da técnica da colagem. Residente na cidade de Goiânia (GO) esse grande criador de imagem artística vem expondo seu trabalho no Brasil e exterior e sempre buscando o dialogo com o receptor. Vale a pena conhecer o universo onírico desse grande artista visual.




1) Você trabalha com a técnica da colagem desde 1997 numa linha consistente do  questionamento contemporâneo da sexualidade. Inclusive você define esse trabalho como poética-colagem. Nos fale como foi esse início e o que despertou a produzir arte,   suas influências no campo pictórico e artístico. 


Bom, a principio desde de pequeno na minha puberdade para a minha adolescência, eu sempre buscava entender tudo sobre o que acontecia ao meu redor, observava e sentia vibrações com um outro olhar, com percepções artísticas com questionamentos e com muita curiosidade de sentir com um bom senso o belo das coisas numa pintura, numa geometria arquitetônica de espaços e construções, nas paisagens e numa boa música. Em meados dos anos 80 cultivava muito o movimento underground ou indie-rock de bandas inglesas e americanas em mídias na Tv,nos Fanzines, nas trocas de cartas de bandas de rock nacional independentes e nas revistas especializadas diversas da música e cinema. Nas artes visuais personagens curiosos como Keith Haring e o incrível e polêmico Andy Warhol me despertava um olhar poético e anárquico social e pop sobre o questionamento e posições políticas da sexualidade humana com a arte, que foram a fonte para eu desenvolver uma contrapartida numa linha tênue com a pornografia-fetichista e com a poesia finalizada nas obras das minhas colagens, porém tempo adiante fui redescobrindo grandes mestres da História da arte e influentes como no inicio do movimento Cubista e da Colagem pelos mestres Paul Cézanne, Pablo Picaso e George Breque. Eu sentia uma necessidade nutritiva na busca de ser e fazer algo no meio das artes, e neste campo da colagem eu ouvia falar também de um artista goiano muito forte nesta técnica que é o João Colagem e neste período em meados dos anos 90 ele estava morando na Europa, mais precisamente em Rotterdam na Holanda. Em 2008 eu tive uma grande e imensurável oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, daí adiante nos tornamos grandes amigos e ele meu grande mestre influente. Com o valor do meu trabalho reconhecido por ele, o João Colagem me fez um convite para participar da minha primeira exposição numa mostra coletiva internacional que ele organizou com uma equipe de produtores e galeristas em Rotterdam/Holanda para a 1ª mostra internacional de arte da colagem ( https//:www.maandvandecollage.com ) em 2010, para essa mostra importantíssima foram também convidados outros artistas goianos, paulistas e brasilienses, dentre outros de vários países do mundo.


2) De que forma o mundo ao redor te inspira a criar e como se dá esse diálogo com o público?

A problemática social e do indivíduo na sua ambiguidade desde o inicio da civilização humana houve conflitos pertinentes permeados por leis, por religião, e por preconceitos que permeiam até hoje em pleno século XXI por incrível possa parecer, e nesse sentido construo diálogos no simbolismo sexual (fantasias, objetos, sentimentos, político e humanismo). Nessa plataforma artística venho mostrando em exposições Coletivas, individual e participativas em projetos culturais de intervenção urbana, o público em geral tem visto com bons olhos na minha poética inserida em meus trabalhos e com tudo isso todos saem ganhando na cultura e na evolução de percepções.



3) Como você vê a cena cultural em Goiânia?

É curioso hoje vendo como era alguns anos atrás a dita cena cultural de Goiânia, como eu tinha dito que desde cedo em minhas percepções e curiosidades de quase tudo do que acontecia ao meu redor, percebia que nas artes era muito forte e meio que glamorioso apesar das comuns dificuldades, porém existia sim uma certa cena que promoviam novos valores e abasteciam o mercado com mais vigor além do salões e concursos de artes promovidos por entidades privadas e galerias importantíssimas pioneiras que existiram. Hoje está tudo reformulado e mais enxuto. Digo: poucas galerias, porém sobreviventes. Acho que também tem o lance da sombra que permeia ainda o conceito cômodo da globalização e da concepção que se põem quase obrigatória do Estado fomentar a cultura(...), pois acredito que a cultura pode também sobreviver por outros meios como na COLETIVIDADE e PARCERIAS PRIVADAS. Mas hoje, se percebe na resistência e mudanças de conceitos, a cena tá muito atraente e diversificada, e se encontra num estado ativo e paradoxo porém existem secções bem definidas e sobreviventes que fazem arte bem organizada e rica, como na MÚSICA (Rock-Indie; Hip-Hop; Erudito e Sertanejo), no TEATRO (riquíssimo), COMPANHIA DE DANÇAS e nas ARTES-VISUAIS (Grupos de Artes; o Grafite/hip hop/dança; Cinema/curtas/ambiental).



4) Você diz que o artista visual precisa  do trabalho focado em ateliê e pesquisa, estudo e aprimoramento. Além  do estudo sistemático das formas, idéias, que ampliam conhecimentos e aumentam as ferramentas para o labiríntico ofício da criação, qual outra dica você daria pra quem está adentrando no mundo das artes visuais?

Bom sou formado em uma área que nada tem a ver com as artes (Ciências Contábeis), e nas artes-visuais sou autodidata. Até chegar a dedicar em tempo maior para a tal qual deixei a anos o ofício da contabilidade para dedicar somente nas artes, isso porém concílio em períodos mínimo de 2 vezes por semana num trabalho paralelo para poder sustentar o sonho do novo ofício. Sabe se que hoje poucos artistas conseguem sobreviver somente da arte, nesse sentido de compromisso o artista, penso eu, é essencialmente necessário o seu comprometimento com uma estrutura em que ele possa trabalhar afinco em suas pesquisas e experiências e nisso numa questão de identidade que gera um valor muito rico para o artista, às vezes é confuso falar sobre isso, na legitimidade da busca da identidade artística pois na História da arte quase tudo foi feito e de repente o que é novo é tão somente um reflexo do que já foi feito, porém se o artista procura um foco sério nos exercícios e pesquisas é o ateliê que vai dar a maior oportunidade dele desenvolver uma possível e forte identidade e para em seguida nas mostras também. E o tempo será a sua verdade com o seu compromisso sincero com a sua arte. Uma dica que eu possa dar, e já pedindo licença para quem quiser seguir, é que o mediatismo de resultados de suas obras e na carreira na maioria das vezes são facas poéticas de dois gumes mortais e egocêntricos do individuo, é como num jogo da vida o mínimo é tudo e o tempo é mais! O ser envelhece mais e a boa arte rejuvenesce eternamente.


5) Você já trabalhou ou tentou trabalhar com outras técnicas, assim como outros materiais e tendências como escultura e outros?

Sim, busco numa melhor veracidade expressar em novas frentes em matéria prima e concepções em outras técnicas fundidas com a colagem, como na fotografia em colagem-digital, na colagem sobre telas, na instalação-colagem ou na intervenção pública pictórico sensorial do grafite/colagem num diálogo geométricos art deco que de forma natural é uma fonte inspiradora em minha cidade natal Goiânia/GO, conhecida como referência rica em monumentos arquitetônicos desse conceito art deco. Deixo a frisar também uma outra forma de trabalho é a ciência da coletividade; esse conceito por intermédio do João Colagem construí uma transição de pesquisas em meus trabalhos me permitindo também a conviver com outros artistas no período de 2010, 2011, 2012 e 2016. Tive ímpares participações coletivas e em grupos de arte. Em 2015 fiz uma individual sobre esse conceito da coletividade que eu participei, com registros e obras (resumidas) para a exposição "résumé" no espaço Vila Cultural Cora Coralina em Goiânia/GO.


6) De que forma a cultura de massa e o constante apelo midiático pelo consumo se vêem refletidos nas expressões artísticas contemporâneas? E como trabalhar dentro desse contexto?

Uma das mudanças mais radicais é o ponto favorável da dita new-globalização, digo deste século vigente (XXI). O balanço POSITIVO & NEGATIVO da mídia atual, positivo pela forma de chegar mais rápido e próximo a quem quiser fazer e cultivar plataformas diversas de diálogos e o negativo (paradoxo) é da super exposição, o imediatismo que ora perturba e desgasta valores. Diante de tudo isso com certeza a mídia de hoje é bem mais eficaz e transformadora e para as artes é uma ferramenta ímpar. Se bem administrada, ambos saem ganhando, digo o público, a obra e o artista.


7) Uma frase.



Vida e arte dois elementos de espírito eterno!

8) Uma grande imprudência praticada.

Não sei, talvez por morar ainda com os meus pais até hoje acredita!? mas isso tem uma explicação lógica e econômica, posso te garantir. rsssssss...


9) Continuar ainda acreditando nas artes visuais?

Sim lógico, e não é uma escolha e sim uma nescessidade espiritual de continuar viver e morrer! 


10) Próximos passos.

Trabalhar e muito com o universo da poética colagem! 




terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

NONATTO COELHO — 30 ANOS DEDICADO ÀS ARTES VISUAIS

Por: Diego El Khouri

30 anos dedicados exclusivamente ao fazer artístico. Um "aventureiro metafísico" que atravessou mares e cidades levando consigo as  cores intensas da "poesia das imagens". Por onde andou marcou as  pessoas de alguma forma devido seu trabalho pictórico. Nonatto Coelho é com certeza um dos grandes artistas plásticos que o Brasil produziu. E o mundo recebe de braços abertos  esse artista devotado, reflexivo  e por vezes até polêmico. Abaixo a entrevista que fiz com esse grande artista:



Foto: Marcos Lobo

1) Como foi seu início na pintura e quais eram suas influências no início de sua carreira?


Na realidade, eu começo a cada dia o meu trabalho pictórico como um eterno recomeço. Restauro minhas cores a cada manhã, ou madrugadas (já que costumo levantar de madrugada para trabalhar) nesses mais de 30 anos dedicado com exclusividade ao “metier artistic”. Portanto, parece até frase de efeito, mas ainda me sinto um iniciante sempre que vou para a frente de uma tela no cavalete. Mas, respondendo a sua pergunta, no início, já no crepúsculo da adolescência vi um trabalho de um pintor vizinho de bairro na cidade de Inhumas, o Dipaiva e me encantei com suas cores exuberantes e o brilho que a tinta à óleo proporciona. Até o cheiro da tinta nesse primeiro contato com a pintura, colou no meu olfato, e esse odor da tinta à óleo é capaz de despertar em mim o desejo de pintar, aquele mesmo desejo primário ao ter meu primeiro contato com uma pintura à óleo desse artista\pintor que relato.

Depois, já morando no bairro Capuava de Goiânia, frequentava esporadicamente o curso livre do Instituto de Artes da UFG, que na época se situava na Praça Universitária, e assistindo a uma palestra de um crítico de arte de São Paulo, fiquei encantado com as imagens que foram projetadas sobre a obra científica do artista Holandês M C Escher. E daí em diante ele se tornou uma referência na minha obra, que perdura até hoje.
*Foto: Mauro Lima


2) você certa vez disse que "o que determinou sua dialética pictórica, de maneira impactante, foi a sua participação (no ano 1981) em uma palestra ministrada por um crítico de arte de São Paulo, no Instituto de Arte da Universidade Federal de Goiás." Ficou impressionado, estarrecido com a "sofisticação e cientificismo" do Holandêz M. C. Escher. A partir de então fez com que você direcionasse sua poética. De que forma exatamente foi esse impacto e quais suas preocupações ao criar uma obra de arte?

Pois sim, como já disse, depois dessa avassaladora visão que tive da obra de Escher, um trabalho tão arrojado que esse artista universal criou, que não tem parâmetros antes ou depois dele, algo que não se enquadra em nenhuma escola, direcionou minha pintura; Escher é único, singular. Uma obra que cria gostosas “armadilhas para a visão”, com um rigor matemático genial... Assim eu segui uma pálida interpretação `a meu modo da obra desse mestre, mas de maneira orgânica e visceral, sem aquela fórmula científica e rigorosa do gênio holandês, é logico. Não sou dado à matemática, embora eu sei ver a matemática em tudo que permeia a vida e a natureza.

Eu sou daqueles que acham que, não importa onde você quer chegar, em se tratando de expressão da arte, você deve partir de uma ideia, um ponto de vista; a sua chegada à um patamar expressivo seja ele abstrato, figurativo, para visual, ou seja lá o que for, aí é outra história, deve acontecer pela ótica da emoção. A obra cria vida e caminho conceitual independente desse “ponto de partida”, e comunica de acordo com o universo de quem tem contato com esse objeto. Intelecto não cria arte, ela, a arte vem de outros departamentos que passa primeiro pela intuição, e o espectador analista não tem o mesmo prazer estético como o sentimental. Georges Braque, o pintor e escultor francês, que fundou o cubismo juntamente com Pablo Picasso dizia que “o saber mata a intuição”, e esse segundo elemento é imprescindível para a gênese da arte. E para decifrar essa linguagem com mais proveito tem que se apaixonar por ela, como por qualquer outra coisa que valha a pena ser vivida intensamente.




3) Quando cria em algum momento pensa no receptor?

Essa é uma pergunta que ao responder pode ser entendida como insolência, mas nunca realizei uma obra artística pensando senão no meu prazer pessoal. Nunca pintei por encomenda expressa, por achar que “encomenda” de um “tipo” de trabalho, é muito complicado. Entender a visão, a ideia que uma  pessoa possa querer projetar na sua maneira criativa é inconcebível no meu modo de pensar, e quase sempre a pessoa que encomenda uma obra temática à um demiurgo, se decepciona com a incompatibilidade de visão que naturalmente ocorre entre ambos, é natural...; muitos artistas ao longo da história  padeceram por serem irredutíveis, e não submetendo sua obra ao gosto do público na construção de sua “dialética” estética, porque a rigor  é incompatível de haver esse entendimento claro entre as partes interessadas nessa ideia, antes do objeto do desejo existir, o único responsável por essa concepção estética deve ser o artista em primeira pessoa; um caso clássico da História da Arte nesse senso, é a conhecida renitência de Rembrandt (aliás uma santa renitência que fez padecer o homem, mas que sobreviveu uma obra soberba através do tempo) que relutou em submeter se ao gosto de seus espectadores, principalmente aos que lhe encomendavam retratos, mas não se viam retratados pela ótica genial do  artista. Tem um grande artista grego de nome Dimitre Mitarás , que numa conversa informal com uma pessoa na universidade de arte de Atenas onde ele é professor, ouvi ele dizer que não mais aceitaria encomendas de retratos, pois o retratado invariavelmente não se reconhecia nas suas pinturas. E acho exatamente assim, o receptor de seu trabalho, seja ele no comércio direto, ou como um simples espectador, deve saber ver, ou gostar, entretanto depois que você o concebeu a sua arte. Sua visão deve ser autônoma, isenta e soberana em detrimento de quem quer que seja esse espectador depois da sua pessoa, a criação logicamente é sua, e não pode ser o contrário.



Foto: Mauro Lima


4) Em 1985 o  artista Armando Sendin apelidou de "Grupo Goiás" o grupo formado por Dipaiva, Luiz Mauro, Dijodio e Nonatto. Nos anos oitenta houve uma efervescência grande no mundo das artes plásticas que se esfriou em meados dos anos noventa. A que se deve esse fator?

Passei todos os anos da década de 90 fora do Brasil, em detrimento de um prêmio que ganhei numa bienal de arte em Goiás, mas imagino que toda a expectativa gerada nos anos 80,  que foi uma década que apenas se libertava de um regime ditatorial ,e teve um momento de euforia “renascentista” interessante de se ver nessa complexa nação gigantesca,  mas  que se estiou em uma década de 90 plena de “ejaculações precoces”, de imediatismos e rompantes tipicamente de imaturidades da nossa sociedade, que refletiu inevitavelmente na nossa produção cultural como um todo, não podia ser diferente...Salvos algumas exceções de artistas que mantiveram a tenacidade e dinâmica estética (pessoas conscientes que mesmo atuando localmente, tem suas obras que comungam com o que há de boa transição e intercâmbio cultural em qualquer dos hemisférios ou tempo que eles habitam), mas que,  em minha opinião, houve a praga, o fenômeno do comércio epidérmico, o mercado é um perigo para o artista, um dos poucos artistas que sobreviveu e até dominou esse mercado sem se sucumbir, foi Picasso..., e nesse mesmo saco de emoções mercadológico, vem também o inevitável  hedonismo narcisístico, nivelando tudo por baixo, assoreando a fertilidade artística do país, talvez efeito de uma globalização imposta ao contrário e de uma sociedade imatura;  e  confundiu-se arte com arte entretenimento...No entanto, como um incorrigível otimista, eu acredito que a boa arte sobrevive em qualquer latitude, ela vai sempre resistir, mesmo ao capital. A volatilidade da vida gira e esse momento deve ser um instante efêmero, porque a vida como uma onda vem e vai, pode demorar, mas tudo recicla. É nessas vagas, nesses limbos estéticos, que surgem “perfumarias” travestidas de arte como um Romero Brito da vida, confundindo a plebe, escrava de tiranias massacrantes, do tipo que vem de Hollywood ou da vênus Platinada. “Tá ligado”?  Risos.

 Nos anos 90 houve, em meu ver, o fenômeno do “Madamismo” na arte; um neologismo que criei, mas que merece um capítulo à parte em explicações, no qual ainda estou estudando para tentar compreender. Mas, em minha opinião houve uma voga, protagonizada por “madames” bem-sucedidas que arrebataram os pincéis e criaram clubes dos “chás pictóricos”, alegres e festivas, endinheiradas, viajam o mundo realizando exposições para elas mesmas, estéreis de sentido artístico. Nada contra, elas estão pagando...
 Na outra extremidade, o hermetismo da arte dita “contemporânea” (aliás, isso não é um ISMO como muitos imaginam), na qual, com tantas peripécias e sofismas acabou por afastar a plebe, já incautas de pai e mãe, dos ambientes das galerias. Talvez deixaram de tentar entender o que tem de tão simples (ou complexo?) na arte à deriva de portos, nesse momento em que vivemos..  Mas, está tudo bem, sem dramas abissais, afinal arte sempre esteve além da compreensão das massas.



Foto:Mauro Lima


5) Fale do grupo "pincel Atômico", membros e  a importância histórica na introdução do grafite no mundo das artes em Goiás.


O Grafite urbano em Goiás tem suas gênesis, como consciência do Street Art, na sua concepção underground, na cidade de Inhumas; o fato é que, depois que encontrei com o introdutor dessa arte no Brasil, o Alex Vallauri em uma exposição do Siron Franco na Galeria São Paulo em Sampa, pouco antes da morte do Alex em 1987,  falei com ele sobre a admiração que eu tenho pelo trabalho dele, e  ele me incentivou a “fazer” Grafite em Goiás. Ao retornar para Inhumas, no dia seguinte, entusiasmado por ter encontrado com o famoso grafiteiro, chamei o “Grupo Goiás”, composto pelos meus colegas Dipaiva, Dijodio e Luiz Mauro (tínhamos na época um atelier em comum na praça Santana de Inhumas), e saímos carimbando figuras lúdicas nos muros da cidade. Depois dessas interferências urbanas de Inhumas, eu já era amigo de Edney Antunes, que no ano de 1988, com o episódio do acidente nuclear na cidade de Goiânia, ele me convidou para que formássemos o grupo “Pincel Atômico”, no qual fizemos muitas interferências urbanas tanto na capital Goiânia, como Anápolis, Inhumas, São Paulo e Uberaba. Depois em 1999 com o Prêmio de Viagem à Paris que ganhei na Bienal de Goiás,  realizei uma campanha de “grafite despedida” nas ruas de Inhumas que dizia “O Nonatto vai embora pra Passárgada, lá ele é amigo do Rei”, e viajei;  dissolvendo o grupo Pincel Atômico por força dessa circunstância; mas continuei a grafitar no velho continente, onde grafitei na ilha de Rhodes e Atenas (fiz uma apresentação para um importante programa de televisão da Grécia denominado “Proinôs Café” (traduz se “Café da Manhã”), para a famosa apresentadora helênica Roula Coromilá). Depois fui para Israel e continuei grafitando, inclusive um mural em um viaduto do deserto de Negev daquele país, em tributo ao Vídeo artista Bruce Nauman (no qual muito me impressionou de ver seu trabalho na Documenta de Kassel na Alemanha), e também grafitei na cidade de Jerusalém onde passei uma temporada.

Um amigo grego da Ilha de Rhodes me disse que tem uma foto de um grafite meu, (uma figura de uma baratinha que grafitei tanto em cidades do Brasil como em cidades da Grécia), em um museu de arte daquela importante ilha Grega. Fiquei contente em saber disso. Acho que fui o pioneiro do grafite naquelas paragens também. Hoje o Grafite é moda no mundo inteiro, inclusive aqui em Goiás. 
Foto: Mauro Lima


6) No ano de 1990, na Bienal de Goiás, os críticos Marcio Doctors, Ligia Canongia e o marchand Jacob Klintowits, lhe conferem o prêmio viagem a Paris, como reconhecimento ao mérito de seu trabalho.  Como foi essa sua primeira experiência fora do país?


Foi uma aventura tipicamente de quem mergulha em um universo completamente desconhecido do ponto de vista geográfico, no entanto eu já estudava a história do velho e fascinante continente Europeu através da ótica da História da Arte e fui ao encontro de meus mitos e minhas lendas artísticas. De Paris eu fui para a Grécia, onde eu tinha uma indicação de meu amigo Grego radicado na cidade de Goianira, o artista Papas Stefanos, que indicou sua família que ainda mora por lá. Assim acolhido por Georgios Papastefanos também um artista pintor residente de Rhodes, passei uma temporada nessa maravilhosa  ilha, depois fui para Atenas, passava temporadas em Israel, Egito, Itália, mas sempre retornava para a ensolarada Grécia, onde passei mais de uma década. Isso para mim foi revelador de alguns aspectos que distanciam a cultura brasileira, de costumes e cultura do velho mundo.  



7) E como foram os anos que morou na Grécia, berço da civilização?


Mesmo antes dessa viagem pelas terras Helênicas eu já usava alguns símbolos ligado a cultura dessa magnifica região em minhas composições pictóricas. Depois de ver e vivenciar aquele ensolarado arquipélago quase metafisico, me realizei do quanto todos nós fomos inoculados pelo profundo conhecimento daquela civilização mediterrânea, desde a construção física onde habitamos, passando pela língua, no qual as palavras mais polissêmicas de nosso léxico vêm do Grego, e até nossa mística espiritual é ligada em um canal transmitido desses povos maravilhosos...Eu que me encantei com o construtivismo lírico nos trabalhos da artista portuguesa Maria Vieira, fui entender melhor sua composição ao ver de perto a arquitetura popular da Grécia atual, principalmente das típicas arquiteturas das ilhas gregas. Enfim a luz, o modo de vida e o humor dos povos mediterrâneos, arrebatou meu espirito, e me deixou em estado de graça. 




8) Você trabalha muito com séries. Qual o motivo de trabalhar com o mesmo tema e levá-lo para outros níveis de entendimento e visão? 


Talvez pelo fato de que não sou uma pessoa criativa, me considero muito previsível e com tendência a racionalizar na medida de meu alcance, tudo que vou realizar; assim, planejo viver ainda muito tempo sem me distanciar do ato de pintar e planejo minha arte de 10 em 10 anos: Cada dez anos eu trabalho e uma fase, mesmo que revisitada como é o caso dos Híbridos\Anfíbios, uma fase revisitada da minha primeira juventude e que essa fase pictórica durou exatamente 10 anos; da mesma forma foi a fase que denominei de Antropomorfia, que comecei a desenvolver ainda na Grécia e antecedeu aos anfíbios dessa série que citei. De maneira que em mais de 30 anos de trabalho, agora me encontro em minha  fase pictórica na série que faço uma simbiose entre os anfíbios e rostos humanos - denominei de “prosopografias”- no qual tenho tomado “emprestado” imagem de rostos de artistas goianos, pelo qual deverá ser impressa em um livro denominada ICONOGRAFIAS POÈTICAS, com a introdução de poesia biografando a personagem retratada por mim, na visão muito poética da escritora  Nádia Pires.





09)  As artes cada vez mais estão sendo deixada de lados nas escolas públicas do país. Por que os governos temem tanto uma sociedade culta e reflexiva?


Acho isso lastimável. Arte tem a capacidade de edificar, nutrir e restaurar nossas dinâmicas corroídas nos desafios que o dia a dia da vida possa nos infligir, e seu destino maior talvez seja fornecer nutrientes para nossas almas. Eu sinto que a arte, assim como a religião, tem um papel essencial com efetividade no lado espiritual do ser humano. Arte e Educação devem estar associadas no dia a dia das escolas, sob pena de faltar algo para a sedimentação cultural se o aluno distanciar dessa disciplina. Na nossa sociedade brasileira não temos o costume da arte como em outras nações desenvolvidas, que prezam por uma educação de fato mais efetiva na formação do indivíduo. Para ilustrar um exemplo de anemia no ensino relativo à arte nos nossos compêndios escolares, basta observarmos a própria semana de 22, que apesar de ter sido uma tentativa compulsória de nos introduzir arte moderna nas nossas artérias nacionais, no entanto ainda é tratada de maneira epidérmica, pálida, pouquíssimo assimilada na nossa cultura escolar. Depois, temos uma Bienal de São Paulo, exposição que, mesmo despertando eventuais polêmicas de seu caráter de ordem impostora de estéticas alienígenas à nossa realidade, ainda é uma das maiores exposições de arte visual do mundo, mas a grande maioria dos estudantes do país desconhece..., temos um dos mais importantes museus de arte das américas que que é o MASP em São Paulo, e nossos alunos na sua imensa maioria desconhecem também esses fatos. O problema da educação no nosso país é crônico, e uma reforma que deixaria de lado o ensino da arte nas escolas, como tentou se implantar no governo atual é preocupante para um país que aspira ser uma nação desenvolvida.





10) Você é o presidente da AGAV (Associação Goiana de Artes Visuais) pela segunda vez. Quais foram as conquistas até agora e o que mais pretende fazer nesse ano em prol das artes?


Sou uma pessoa que gosto de desafios, e estar na presidência da AGAV é estimulante por vários motivos, mas imagino que o mais prazeroso nesse caso é que o universo da arte é indissociável de meu dia adia desde a minha primeira juventude sem esperar nada em troca a não ser meu prazer pessoal. Nunca fiz nada na vida longe do “metier” da arte, e faço para a AGAV de maneira voluntária, sem rendimentos de ordem pecuniárias, no entanto com renovado entusiasmo a cada dia. 

A AGAV está dando os seus primeiros passos: foi fundada em 2006 e registrada como uma instituição com CNPJ em 2009, mas ganhamos dinâmicas a cada dia. Temos um pessoal apaixonado, no qual muito me dá alegria de estar com eles. Já temos uma sequência de atuações sócio\culturais de relevante importância na história desse estado rico e diversificado de cultura.
Realizamos muitos projetos de efetividade artística não só no estado, mas até fora do país, e no momento estamos envoltos com um vigoroso projeto denominado de O NOVO GRITO, que de maneira lúdica e incisiva, marcamos a história da instituição com um protesto iconográfico sobre o que pensamos do mundo na atualidade com tantos paradoxos e antagonismos de ordem político\ social.
Temos projetos de desenvolver salões de arte não só na capital, mas também no interior. Vamos desenvolver oficinas em locais públicos direcionados à população em geral, etc.